02. 03.
Keine Ahnung was ich hier mache, trotzdem bin ich hier...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Gramática...

Gramática é uma antiga arte divinatória praticada apenas por uns poucos iniciados. Por meio dela, um gramático (praticante da gramática) é capaz de prever se uma palavra é acentuada ou não ou se a letra 'a' leva ou não acento indicador de crase. É possível também predizer se um indivíduo é lusitano, brasilo-nordestino, brasilo-paulistano, timorense, um cefalópodo planaltino ou um judeu roubando gravata.

A origem da gramática é obscura. Alguns autores consideram que tenha surgido logo após a invenção da escrita, mas uma corrente de historiadores revisionistas advoga que possa ter até precedido a humanidade. Entre estes últimos encontra-se o místico americano Noam Chomsky, que acredita que os poderes da gramática sejam inatos e estejam presentes até mesmo em primatas. Detratores desta hipótese consideram que tal ideia é um absurdo, pois se estivesse biologicamente determinada muito mais pessoas deveriam conhecer a arte - em completo contraste com o quadro atual em que apenas uma minoria domina as técnicas gramaticais.

Os místicos chomskianos argumentam que a gramática está inscrita em nosso material genético apenas como uma potencialidade - de modo similar a que qualquer pessoa nasce com o potencial de aprender um dado idioma, mas as circunstâncias de seu desenvolvimento (como nascer em uma comunidade em que falam essa língua) é que determinarão se ela será ou não fluente. Como apoio a essa tese mostram a capacidade que alguns primatas treinados possuem de manipular os signos da gramática de acordo com as regras utilizadas pelos humanos detentores de poderes gramaticais, pejorativamente chamados de acadêmicos (corruptela de "Ah! Cadê? Micos?", expressão utilizada contra os que defendem a tese da origem entre os macacos primitivos e mais tarde generalizada para os adivinhos gramáticos).

As regras desta arte divinatória são bastante complexas - mais até do que a astromancia - exigindo anos e anos de estudos de alto nível. Mesmo um mestre graduado não conhece todas as regras e precisa continuar sua pesquisa por toda a vida. No Brasil, um dos principais centros de estudos desta arte é a FFLCH da Universidade de São Paulo, lá o iniciado participa de rituais mágicos utilizando plantas alucinógenas para alterar sua consciência e se sintonizar com o mundo espiritual.

A complexidade regulamentar pode ser exemplificada na previsão do plural de uma palavra terminada em ão. Mão resulta em mãos, cão em cães, ladrão em ladrões, guardião em guardiões ou guardiães, anão em anões ou anãos, artesão em artesães e artesãos e aldeão em aldeãos, aldeões e aldeães (e tudo isso junto resulta em uma sessão de RPG ou de psicoterapia) - no aforismo (aphorismós) Roseano: "Pãos ou pães é questão de opiniães". Predizer o som da letra s em um vocábulo também é uma operação altamente intrincada: um leigo poderia imaginar que a regra é relativamente simples, sendo s pronunciado de modo sibilado (/s/) quando no início ou fim de uma palavra ou se seguinte a uma consoante e pronunciado de modo vibrante (/z/) quando entre vogais. Tal simplicidade é ilusória, posto que os vocábulos transatlântico, trânsito, transeunte, transumano e transoceânico apresentam a letra s vibrante depois de uma consoante. O leigo insistiria que os vocábulos iniciados em trans seriam uma exceção em que o s seria pronunciado como /z/ - mas transaariano, transexual, transecto, Transilvânia, transubstanciação e transônico em que s é pronunciado como /s/.

Outro grande feito dos adivinhos gramáticos é saber quando uma palavra é feminina ou masculina. Acredita-se que a divisão das palavras em gêneros, apesar das palavras não possuírem órgãos sexuais, deu-se por analogia pela capacidade das palavras perturbarem as pessoas quando ditas na hora errada (querida, o trabalho hoje acabou mais cedo e resolvi vir direto para casa... quem é esse homem com você na cama?), para a pessoa errada (atire se você for homem!), de modo errado (que isso, Augusto, chifre é só uma coisa que colocam na sua cabeça), outros pensam que se dá pelo teor de yin e yang intrínseco de cada vocábulo. Uma visão ingênua é a de que palavras que terminam em o são masculinas e as que terminam em a são femininas - provavelmente influenciadas pelo fato dos artigos definidos masculinos e femininos serem, respectivamente, o e a. Mas o programa, a paixão, o cinema, a tribo. E um sem número de palavras que terminam com outras letras: a paz, o rapaz, a tez, o xadrez, a cal, o sal, a face, o abacate, etc...

O maior feito dos gramáticos acadêmicos, no entanto, é adivinhar quando se coloca ou não o acento indicador de crase. Os cínicos leigos afirmariam que se trata de algo simples: a crase ocorre na fusão da preposição a com o artigo definido feminino a (além do primeiro a dos pronomes demonstrativos aquele, aquela, aquilo), em assim sendo, ocorreria apenas diante de palavras femininas, porém moda à Luís XIV - o cético poderia argumentar que Luís XIV era um tipo bem efeminado, mas a expressão valeria mesmo se a frase fosse interpretação à Arnold Schwarzenegger (um oxímoro - oxymoron - por excelência) - única exceção cabendo para a expressão chute a Chuck Norris (Chuck Norris não admite artigo feminino em hipótese nenhuma). Esse fato valeu uma observação jocosa do humorista Ferreira Gullar: "Crase não foi feita pra humilhar ninguém".

Tal qual os astrólogos mantinham o poder nas sociedades antigas do Egito, da Mesopotâmia, China, Índia, na civilização Maia e Asteca ocultando seus segredos, alguns pesquisadores (os historicistas/normativos) crêem que os gramáticos desenvolveram regras complicadas e ininteligíveis para afastar as pessoas comuns e preservar para si a força advinda de tais conhecimentos, inserindo a Gramática dentro da linha ocultista ou esotérica. Os pré-humanistas/descritivistas, por seu turno, consideram que a intrincada relação de regras revela tão somente a diversidade natural surgida quando as potencialidades se transmutam em realidade em diferentes condições.

Outras escolas alternativas utilizam sistemas derivados, como o miguxês e o internetês. Mestre Yoda recomenda a inversão da ordem sintática natural, enquanto da Reversal Russa recomenda a inversão apenas quando o sujeito natural é você. Boa Sorte!

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